As Sete Artes Liberais não vão te salvar da modernidade

Nos últimos sete anos, tenho percebido uma geração toda buscando uma unidade de conhecimento não mais oferecida pelas instituições modernas. Cansados da hiper-especialização das universidades, dos chavões progressistas — a linguagem e a realidade são uma construção social — começamos a buscar pela ordem e pela harmonia entre o conhecimento e a realidade na imaginação medieval. E aqui entra o papel das Sete Artes Liberais.

Vistas como uma propedêutica para o Ensino Superior na Idade Média, permitindo que o estudante se preparasse para os estudos da Filosofia e da Teologia, as Sete Artes Liberais tinham a função de uma verdadeira formação do espírito. O Trivium — Gramática, Lógica e Retórica — conferia ordem à linguagem humana, permitindo que o conhecimento fosse partilhado, comunicado. O Quadrivium — Aritmética, Geometria, Música e Astronomia — conferia forma ao mundo, que não aparecia mais como um conjunto de percepções desordenadas, mas como um cosmos — palavra grega que implica a noção de ordem, harmonia e beleza contemplável.

Portanto, nos agarramos ao manual da Irmã Miriam Joseph feito um náufrago se agarra aos destroços do navio para não se afogar. Não lemos manuais escolásticos de lógica pelo prazer da leitura, mas com o intuito de ordenar nosso caos interior. Aprendemos a identificar diversas falácias — o que trouxe amplas vantagens nos debates com desconhecidos na internet. Mas será que realmente conseguimos o que queríamos?

C. S. Lewis, em seu clássico The Discarded Image: An Introduction to Medieval and Renaissance Literature (1964) nos lembra de um fato singular: as Artes Liberais não eram um todo isolado, mas uma maneira de inserir o jovem estudante em um sistema de conhecimento relativamente uno, que funcionava como imagem do universo. Por trás das discordâncias escolásticas sobre qual seria o princípio da individuação, ou se os anjos seriam compostos ou não por matéria, havia uma imaginação comum, fundamentada em Ptolomeu, Aristóteles, Apuleio, Lucano, Calcídio, Macróbio e Pseudo-Dionísio, entre outros. A própria representação artística das Artes Liberais as inseria neste sistema imagético, correspondendo cada Arte com um planeta: a Música se relacionava com Marte, a Retórica, com Vênus, etc.

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As Artes Liberais, portanto, eram um todo unificado que se encaixava dentro de um todo unificado. As discordâncias significativas sobre as partes — por exemplo, sobre qual seria o objeto da lógica, eram fundamentadas numa unidade de princípios que permitia que o debate se tornasse, ao menos, possível. Como fazer algo possível nos dias de hoje? É realmente viável que um jovem busque uma formação completa nas disciplinas equivalentes das Artes Liberais que hoje existem? Dominar a Aritmética de Boole e Peano, a Lógica de Gödel de Newton da Costa, a Gramática Generativa de Chomsky e a Nova Retórica de Perelman e Olbrechts-Tyteca, ser capaz de dissertar com clareza e precisão sobre as diferenças de modelo cosmológico entre o paradigma da Relatividade Geral e a Mecânica Quântica? Como o jovem de vocação intelectual poderia dominar com maestria estes campos do conhecimento e muitos outros — que inegavelmente constituem o desdobramento do Trivium e do Quadrivium — sem cair naquela especialização fragmentária que constitui justamente o risco do qual eles querem escapar? Pior ainda, como atingir qualquer unidade nestas áreas sem uma densa formação de vocabulário filosófico que permita compreender os primeiros princípios da linguagem e da realidade, se o estudo destas áreas visa para a preparação da Filosofia, e não o contrário?

Nós nascemos no olho do furacão, e não há mais instituição que seja capaz de nos fornecer uma imagem una do cosmos. Nós vivemos na modernidade, e ser moderno significa ser fragmentado. Portanto, na Cultura Moderna, o posicionamento frente à educação deve ser em primeiro lugar uma atitude de responsabilidade pessoal e existencial extrema. É reconhecer que vivemos alienados de nossos próprios pensamentos — não conhecemos de fato a origem das ideias mais profundas que movem nossas decisões, ou mesmo de nossos sentimentos — muitas vezes sentimos cansaço, desencanto, frustração, sem mesmo saber o porquê e sem nem saber o nome daquilo que sentimos. É saber que estamos alienados da natureza, de nossa comunidade, de nós mesmos — e, em última instância, de Deus.

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Para esta circunstância, a melhor forma possível de Educação é a formação literária. A Narrativa, a Lírica e o Drama — especialmente com os desdobramentos que estes Gêneros Literários tomaram desde os séculos XIX-XX, permitem que absorvamos os meios de expressão e representação de nossa experiência fragmentada, de nossa condição de estranhamento frente ao mundo. Ler T.S. Eliot ou James Joyce significa ser capaz de dar nome aos demônios da fragmentação moderna — e como sabemos, aquele que dá nome tem o poder de exorcizar.

Para além das impressões imaginárias deixadas pela leitura imersiva desta grande literatura, é necessária uma complementação analítica de duas asas. A asa esquerda é a leitura que foca na forma, no estilo, na técnica — em como estas obras cumprem um ideal estético e se situam na tradição literária. A asa direita é a leitura que foca nos arquétipos e dramas interiores que aparecem na obra, e a ressonância destes tópicos para nossa experiência de pessoas em busca de sentido — e aqui, entra a necessidade de uma complementação psicológica, mitológica e religiosa. A leitura dotada das duas asas levanta aos céus feito um serafim incendiário — não há garantia que este leitor possuirá o Reino do Espírito, mas com certeza conquistará o reino de seu próprio espírito. A leitura de uma asa só levanta um pouco do chão, mas sem maiores sucessos, feito o melancólico albatroz de Baudelaire. A leitura sem asas ficará na terra gasta, onde haverá choro e ranger de dentes.

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