“Silence is the indispensable climate for all revelation; noise renders it absolutely impossible.” ― Valentin Tomberg, Meditations on the Tarot: A Journey into Christian Hermeticism
Eu tenho um sonho… Produtividade lenta.
Não, espera, essa frase não é minha. Mas serve bem para começar este artigo. No final de 2023, em dezembro, eu comprei um domínio e uma hospedagem. A ideia que eu tinha em mente era a de construir o melhor blog sobre produtividade do Brasil (sonho pequeno).
Acontece que a ideia não foi para frente. Eu cancelei o domínio e nem mesmo estruturei o blog, o layout ou escrevi qualquer post. O ano de 2024 foi extremamente barulhento para mim. Eu atolava os meus dias com conteúdos e, aos fins de semana, apenas procurava qualquer coisa simplificada para derreter a minha mente.
Manter um certo nível de trabalho focado é extremamente exigente. É cansativo e, em home office, pode ser ainda mais exaustivo. Alternar rapidamente entre as exigências do trabalho e as exigências domésticas era um tormento para mim, e talvez seja para você também.
Ainda naquele ano, conversando com um amigo (que também é autor aqui no blog), eu falei para ele que o conceito de produtividade propagado por aí, principalmente pelos coachs que querem apenas o seu dinheiro, está completamente equivocado.
A ideia de uma produtividade baseada em um indivíduo produzindo a um nível praticamente industrial era absurda. Foi isso o que me levou a pensar nas virtudes cardeais (as quatro virtudes aristotélicas). E se o que São Tomás disse é verdade, que a prudência é a mãe de todas as virtudes, então o conceito de produtividade dos coaches é imprudente.
Produtividade lenta
Comprei recentemente o livro Produtividade Lenta, de Cal Newport, que também é autor de Trabalho Focado (Deep Work) e Minimalismo Digital (Digital Minimalism), e alguns outros. (Recomendo fortemente a leitura dos trabalhos do Cal Newport, você não vai se arrepender de dar uma chance para os livros dele).
Li apenas algumas páginas do livro e, por isso, este artigo é menos uma resenha ou crítica do que um insight importante de algo que venho matutando há anos. Só agora me ocorreu escrever e compartilhar com os possíveis leitores o que penso sobre produtividade lenta.
Vamos lá.
Nas primeiras páginas, Cal relata alguns comentários que recebeu em seu blog, durante a pandemia de 2020. O núcleo do problema que os comentários levantaram é o seguinte: a produtividade como um sinônimo de sempre fazer mais é completamente absurdo.
A pandemia foi um divisor de águas na maneira como boa parte da população mundial trabalhava. Acompanhe: o modelo tradicional de trabalho exigia que você saísse de casa e fosse ao escritório, trabalhasse algumas horas e retornasse.
Isso permitia que você conseguisse, de alguma forma, separar o trabalho da atividade doméstica, dando tempo para fazer cada um com a devida atenção. Mas a pandemia quebrou a linha que separava uma coisa da outra, e agora os trabalhadores estavam com dificuldades de saber o que era trabalho do que era lazer ou vida doméstica.
Essa situação é extremamente cansativa. Por isso precisamos de produtividade lenta.
Muitas atividades domésticas demoram e demandam esforço físico. Mas tanto o físico quanto o mental trabalham juntos. Ambos precisam de descanso de tempos em tempos, e agora não dava mais para relaxar em casa.
Dividir a atenção entre reuniões online, responder emails e o choro das crianças, levar o lixo para fora, fazer o seu almoço ou lavar a louça passou a exigir uma energia descomunal. E incentivadas pelos coaches de produtividade (que por sinal delegam tudo para os outros e por isso tem tempo de ganhar muita grana ensinando você a produzir sempre mais), as pessoas começaram a acreditar que quanto mais trabalhassem, mais produtivas estariam sendo.
É aqui que entra a teoria aristotélica das virtudes. A prudência é a base de tudo, é a reta razão no agir. Se você não usa a sua inteligência para organizar o seu trabalho e decidir o que deve ser feito, e o que não deve ser feito, vai acabar completamente esgotado, tanto física quanto mentalmente.
Meu conceito de produtividade sempre foi baseado em produzir menos mas com qualidade.
Cal Newport parece ir na mesma linha ao trazer o conceito de produtividade lenta.
Menos é mais
Lembro-me de acompanhar, há alguns anos, o Masterchef Brasil. Lembro também de algumas vezes ouvir a frase “menos é mais”. E essa é a essência da produtividade lenta.
Quando fazemos menos, fazemos mais. Pense nisso: existem algumas tarefas tão essenciais na sua vida, aquelas que de alguma forma melhoram a sua vida, que você não pode deixar de fazê-las. Mas é aí que está o X da questão:
A maioria das pessoas acha que tudo o que fazem gera valor.
Veja bem: a menos que você seja uma pessoa realmente de valor inestimável para a humanidade, e que tudo o que você faz é uma espécie de milagre capaz de mudar vidas, uma boa parte do que você faz praticamente não tem relevância.
“Mas, Carlos, só bilionários têm o privilégio de poder escolher o que vão fazer.”
Isso não é bem verdade. Você não apenas pode escolher o que vai fazer, como escolher bem o que vai fazer com o seu tempo e energia é o que muda tudo.
Se você tem a opção de cancelar reuniões chatas; de não responder um email uma da manhã; de dizer não para pessoas que tentam te empurrar tarefas… Faça!
No final do dia, você não vai ganhar absolutamente nenhum centavo a mais se fizer o trabalho alheio. Diga não. Faça o necessário para aumentar o seu valor e sua inteligência.
Seja prudente.
Prudência e produtividade
Como eu disse no começo, eu tinha um sonho: gostaria que as pessoas que falassem sobre produtividade o fizessem desde a ética aristotélica.
Falar sobre produtividade sem falar de prudência me parece vazio, ou ao menos incompleto. O conceito de prudência e de justiça são fundamentais para termos uma boa vida, uma vida mais feliz, mas todo o conceito de produtividade é construído sobre uma visão econômica da produção.
O problema disso é que quem produz, sempre e invariavelmente, é gente. É um ser humano. E sua finalidade é, em sentido aristotélico, a felicidade, o sumo bem. Quem faz muita coisa, não consegue cultivar o silêncio.
E sem o silêncio, você não consegue contemplar. E sem contemplação da verdade e de Deus, você não será feliz.
Desacelere. Produza mais fazendo menos.