O Apocalipse da Terceira Roma

Cena do filme “Ivan, o Terrível”, de Sergei Eisenstein, assim como as demais imagens da presente publicação.
 

I – Introdução


Poucas culturas são tão ricas e interessantes quanto a russa. Pensemos na literatura de Dostoievski, intensa e rústica, típica de um povo jovem, entre a barbárie e a civilização; mesmo Tolstoi, apesar de mais sofisticado, é igualmente intenso, ou  até mais – vale recordar que Dostoievski não tentou fundar nenhuma religião. Lembremos da música de Tchaikovsky, melancólica como um bosque sombrio e invernal, em cuja espessura criaturas fantásticas parecem espreitar; e como não mencionar a paixão telúrica de uma peça de Stravinsky ou Mussorgsky? Mas talvez o que mais nos atraia na Rússia seja a mística ortodoxa, profunda, silenciosa, como o próprio território russo, abissal, com seus desertos de gelo, suas montanhas silentes, em cujas grutas tantos eremitas e santos se esconderam, fugindo do saeculum para que conseguissem viver mais perto da Eternidade. 

Não deixa de ser interessante também a semelhança entre a cultura russa e a brasileira; há até mesmo quem chame nosso país de “Rússia nos trópicos”, feito Gilberto Freyre. Ambos são países continentais, de história recente, com uma população sofrida, um governo dado ao despotismo, com o mesmo catolicismo de marcada tendência mariana.

Apesar destas semelhanças de superfície, um olhar mais profundo na história e na sensibilidade russa revela que estamos lidando com uma cultura essencialmente oposta à nossa. Eis o tema deste ensaio.

 

II – A Terceira Roma


Com a queda de Constantinopla em 1453, o cristianismo ortodoxo perdeu seu eixo. O clero, angustiado, observava o declínio do Império que por séculos protegera a Igreja, ao mesmo tempo em que já se perguntava se haveria na Eurásia um nobre fiel e de mão forte, que pudesse garantir a força e a unidade da ordem cristã. Seu olhar se voltou então para um próspero centro eslavo, que há um século vinha se fortalecendo às margens do rio Moscova. 

Após o saque de Kiev por parte dos mongóis, ainda no século XIII, as energias espirituais do povo eslavo foram transferidas das estepes meridionais para o interior do território, concentrando-se em Moscou. O elemento fundamental desta transição foi o renascimento monástico disparado por São Sérgio de Radonej, o qual, ao deparar-se com o relaxamento das ordens religiosas tradicionais em Moscou, preferiu se retirar e viver sua vocação ascética em meio às densas florestas que cercam a cidade. Com o tempo, sua santidade e sua valentia foram atraindo outros fiéis para o seu entorno, e em 1337 São Sérgio fundou o monastério da Santíssima Trindade, que viria a se tornar o núcleo civilizacional e espiritual de toda a Rússia, constituindo o modelo de uma rede de comunidades cenobíticas que se espalhariam pelo território. 

Não à toa, São Sérgio é conhecido como o pai da Rússia, um legado equivalente ao de São Bento no cristianismo ocidental, cujo modelo monástico forneceu uma base espiritual sólida para a reconstrução de uma civilização que jazia semi-morta após a queda de Roma. 

Foi justamente nestes monastérios que começou a se desenvolver, a partir do declínio de Bizâncio, a ideologia que apontaria Moscou como sua sucessora no guiamento imperial e espiritual da civilização ortodoxa. Por mais que isso pareça estranho para um ocidental, acostumado à distinção entre a ordem temporal e a espiritual, a concepção da Igreja Ortodoxa é muito diferente. Sobre isso, comenta James Billington: 1

“Ao mesmo tempo em que a Igreja do Oriente proclamava ser a única Igreja verdadeiramente apostólica, o Império Oriental afirmava possuir uma genealogia especialmente santificada, procedente da Babilônia, da Pérsia e de Roma. Desde o final do século XIV, Constantinopla passou a ser considerada a Nova Roma, capital de um império dotado de um destino, distinto de qualquer outro império existente na terra. Bizâncio não era ‘um’, mas ‘o’ Império cristão, especialmente escolhido para guiar os homens pelo caminho traçado pelos cronistas: aquele que conduzia da encarnação de Cristo até a sua segunda vinda.

Seguindo mais a Clemente e a Orígenes do que a Santo Agostinho, a teologia ortodoxa falava menos do drama da salvação pessoal do que da redenção cósmica. Enquanto Santo Agostinho transmitia à cristandade latina um pesado sentimento do pecado original e um certo pessimismo em relação à vida terrena, esses Padres orientais transmitiam à cristandade ortodoxa a inclinação a crer que o Império cristão do Oriente poderia, em última instância, transformar-se em um reino celestial. O misticismo hesicasta encorajava os ortodoxos a acreditar que tal transformação era uma possibilidade iminente, por meio da intensificação espiritual de suas próprias vidas — e, em última análise, de todo o Império cristão.”

A ideia essencialmente bizantina de que há um destino e uma dignidade especial para a sociedade ortodoxa transferiu-se, através dos círculos eclesiásticos, para Moscou. Seu grão-duque, Ivan III, protetor do complexo de monastérios que cercavam a cidade, parecia envolvido ele mesmo em uma aura de santidade; e quando este casou-se com a sobrinha do último imperador bizantino, em uma suntuosa cerimônia celebrada em 1472, a ascensão apocalíptica de uma Terceira Roma já era certeira. Especulava-se que os sete mil anos desde a Criação do mundo, datada em 5.508 antes de Cristo, estavam chegando ao fim, e que a cristandade russa seria o capítulo culminante na história sagrada. Filoteu, do monastério de Pskov, foi o primeiro a propor o projeto da Terceira Roma a Ivan III, e vale a pena citar uma carta de sua autoria, dirigida a Basílio III em 1511:

“A igreja da primeira Roma tombou por causa da heresia infiel de Apolinário. Os portões da segunda Roma em Constantinopla foram derrubados pelos ismaelitas. Hoje, a sagrada igreja apostólica da terceira Roma em vosso Império reluz na glória da fé cristã aos olhos de todo o mundo. Sabei vós, Ó poderoso Czar, que todos os impérios dos cristãos ortodoxos convergiram para o vosso. Vós sois o único autocrata do universo, o único Czar de todos os cristãos… Seguindo os livros proféticos, todos os impérios cristãos têm um fim e convergirão para um único império, o de nosso gossudar, isto é, o Império da Rússia. Duas Romas caíram, mas a terceira permanecerá, e nunca haverá uma quarta Roma.”

Ivan IV, também conhecido como Terrível, foi o primeiro a se proclamar Czar e encarnar historicamente o símbolo da Terceira Roma. Figura das mais complexas, exterminou a aristocracia tradicional russa (os boiardos) para realizar seu projeto czarista e centralizador, revelando uma crueldade extrema para com quem ficasse em seu caminho, mesmo que membros de sua família; ao mesmo tempo, Ivan extinguiu pela raiz a cultura secularista que começava a surgir na Rússia, prescrevendo uma série de ritos e normas para todos os aspectos da vida doméstica, insuflando assim um componente religioso e monástico no cotidiano do povo russo. “Em tudo o que fazia, concebia-se como o líder de uma civilização religiosa monolítica”, foi como James Billington definiu o primeiro Czar. Apesar de parecer um estadista modernizante e centralizador, como o eram muitos na Europa do período, Ivan IV era outra coisa muito diferente. Sobre isso, resumiu Voegelin:

“O reino de Ivan, o Grande, coincide com a consolidação dos estados nacionais do Ocidente (Inglaterra, França e Espanha), enquanto os reinos de Ivan IV e Teodoro I coincidem com a Reforma no Ocidente. Justamente quando a articulação imperial do Ocidente terminava de se desintegrar, quando a sociedade ocidental rearticulava-se em nações e na pluralidade de igrejas, a Rússia iniciava sua carreira como herdeira de Roma. Desde suas mais remotas origens, a Rússia não foi uma nação no sentido ocidental, mas uma área civilizacional dominada etnicamente pelos Grandes Russos e transformada em sociedade política pelo simbolismo da continuação romana.
[…] Ao longo dessa sanguinolenta operação, Ivan, o Terrível, deixou estampada na Rússia a indelével articulação social que determinou a história política interna do país até os dias de hoje. Transcendentalmente, a Rússia se distinguia de todas as nações ocidentais como representante imperial da verdade cristã; e, mediante sua rearticulação social, da qual o czar emergiu como representante existencial, a Rússia desvinculou-se radicalmente do desenvolvimento das instituições representativas no sentido dos estados nacionais do Ocidente. Napoleão, finalmente, reconheceu o problema russo quando, em 1802, disse que só havia duas nações no mundo: a Rússia e o Ocidente.”

 

III – O agostinianismo latino-americano


A simbolização agostiniana das duas cidades só foi acatada pela parte ocidental da Igreja; entre os ortodoxos, prevaleceu a ideia do estado como representante imperial da verdade cristã. A relação norte-americana com a ordem, apesar das diferenças históricas e religiosas, estrutura-se de modo análogo, encontrando sua unidade na Constituição, assim como o estado secular romano era estruturado em torno da lex.  

O bloco latino-americano por sua vez, apesar de herdeiro do agostinianismo católico-romano, possui características muito próprias. A dificuldade das potências ibéricas de manter uma estrutura governamental sólida nas Américas – principalmente no caso hispano – fez com que uma sucessão de sistemas políticos débeis e falhos, somados ao trauma da colonização, marcasse a alma latino-americana com uma profunda dissociação entre a ordem social e a ordem cósmica; algo como um extremo-agostinianismo. Como escreveu Borges: 

“O argentino, ao contrário dos americanos do Norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode ser atribuído à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração. A verdade é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão. Aforismos como o de Hegel ‘O Estado é a realidade da ideia moral’ parecem-lhe piadas sinistras. Os filmes elaborados em Hollywood costumam oferecer à admiração o caso de um homem (geralmente um jornalista) que busca a amizade de um criminoso para depois entregá-lo à polícia; o argentino, para quem a amizade é uma paixão e a polícia uma maffia, sente que esse ‘herói’ é um incompreensível canalha.
Sente, como Dom Quixote, que ‘cada qual que se avenha com seu pecado’ e que ‘não é certo o homem honrado ser algoz de outros homens, sem que nada lhe vá nisso’ (Quixote, I, XXII). Mais de uma vez, em face das vãs simetrias do estilo espanhol, suspeitei que diferimos irremediavelmente da Espanha; essas duas linhas do Quixote bastaram para convencer-me de meu erro; são como o símbolo tranquilo e secreto de nossa afinidade. Algo que é profundamente confirmado por uma noite da literatura argentina: essa desesperada noite em que um sargento da polícia rural gritou que não ia consentir o delito de matarem um valente e pôs-se a lutar contra seus próprios soldados, ao lado do desertor Martín Fierro.”

Uma política totalitarista aqui seria impossível; para se manter, ela precisa de um país acostumado a instituições minimamente dignas e funcionais, como os europeus; ou então, de uma simbolização apocalíptica, feito a que o clero ortodoxo insuflou no estado russo. Mas o desprezo para com a ordem social estabelecida é tão marcado nas culturas latino-americanas que alguns políticos brasileiros do Império e da primeira República sentiam-se mal quando não se viam caricaturados nas revistas, nos jornais ou nas anedotas, tão acostumados que estavam com esse tipo de atenção popular. Gilberto Freyre chegou até a conhecer um que, quando passava muito tempo sem ser alvo da zombaria pública, tomava a iniciativa de escrever ele mesmo uma crítica a si e a publicar sob pseudônimo em algum jornal da oposição. 

Foi isso que Zweig percebeu ao refugiar-se no Brasil, e foi isso que o levou a chamá-lo de “País do Futuro”. Nossa força repousa em algo muito mais profundo do que o poder dos impérios que nascem hoje para morrer amanhã. Não somos cidadãos, mas sim indivíduos e, por isso mesmo, entranhadamente cristãos, uma vez que o cristianismo é a religião do indivíduo; é mesmo a religião do Deus que se fez indivíduo.

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