Estar na companhia dos grandes clássicos não é algo que se aplica apenas a poetas e romancistas. Aplica-se também aos grandes contistas, aos grandes escritores que alcançaram grandeza na arte da brevidade.
Justamente pelo conto se tratar de uma arte breve, por ser mais curto que uma novela e um romance, é que decidi fazer a seleção abaixo. Você vai encontrar alguns dos melhores contos modernos e, na minha humilde opinião, alguns dos melhores contos de todos os tempos.
Você não precisa ler todos em sequência. Pode espaçar as leituras à vontade. O que você definitivamente não pode é ficar sem conhecer as maravilhas que são essas pequenas-grandes obras-primas da história da literatura.
Vamos lá?
Por que ler contos?
Antes de ir direto aos contos, achei necessário levantar essa pergunta. Aposto que você também se perguntou a mesma coisa assim que viu este artigo. Mas eu garanto que existem boas razões para isso.
Em primeiro lugar, como eu já disse acima, o conto é o que eu chamaria de “a arte da brevidade em prosa”. Eles tendem a ser curtos, geralmente menores que 50 páginas, o que é ótimo para leitores que têm problemas com concentração.
Por exemplo, se você pegar o conto A Causa Secreta, vai encontrar uma narrativa de menos de 10 páginas, que pode ser lida em menos de 30 minutos com tranquilidade. O desafio, obviamente, é saber se você consegue ficar 30 minutos sem pegar no celular.
Isso me leva à segunda razão para ler contos hoje em dia: novelas e romances, devido ao seu tamanho, tendem a ser lidos por partes, enquanto o conto tende a ser lido do começo ao fim sem maiores dificuldades. Mortimer Adler, autor de Como Ler Livros, escreveu o seguinte:
“Idealmente, uma narrativa deveria ser lida numa única sentada, ainda que isso raramente seja possível para pessoas ocupadas que queiram ler romances extensos.”
Primeiramente, lá ele mil vezes. Mas brincadeiras à parte, um conto atende muito bem a esse “ideal” de leitura de uma narrativa. Adler diz que ler uma narrativa de uma única vez é o ideal porque você não perde, assim, o fluxo dos eventos e o ritmo psicológico da história.
É mais ou menos como tentar assistir a um filme de duas horas 10 minutos por dia em uma semana. O resultado que você consegue com isso é simplesmente não se deixar afetar completamente pela pulsação da obra.
A terceira razão que consigo pensar para ler contos é o fortalecimento da memória. Hugo de São Vítor acreditava corretamente que a memória retém melhor fragmentos curtos de uma ideia, como em pequenos quartos dentro de quartos.
Sendo praticamente impossível decorar todas as palavras de um conto, o que se deve reter na memória é a unidade de ação e os personagens. Contos geralmente trazem poucos personagens principais e focam principalmente em uma unidade de ação.
Romances e novelas, por outro lado, trabalham núcleos de personagens maiores e uma série de eventos (enredo) também grande. Ponto positivo para o conto.
O último e talvez o mais inútil de todos os motivos para ler contos hoje em dia foi expressado pelo professor José Monir Nasser, ao falar sobre os clássicos em geral:
“Não somos nós que explicamos os clássicos; eles é que nos explicam.”
Trocando em miúdos, a personagem universal da arte é a humanidade, o que inclui você e eu. Então ler um clássico é ler sobre você mesmo de alguma forma. Aqui estão os melhores contos para ler em 2026.
A Causa Secreta
Eu definitivamente não poderia começar esta seleção de melhores contos para ler em 2026 de outra forma. Afinal, A Causa Secreta, do Bruxo do Cosme Velho, de Machado de Assis, é meu conto favorito de todos os tempos, mesmo que não seja o melhor conto já escrito.
Observe atentamente como o narrador começa um dos melhores contos:
“Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o teto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha.”
Machado de Assis faz uma escolha absolutamente perfeita de não comentar as ações das personagens. Ele apenas dá as ações e deixa que você imagine o que elas significam. Não opina em nada, apenas mostra.
Os três personagens, dispostos na mesma sala, mas em completo silêncio. Nem por isso Machado deixa de dar os detalhes mais importantes para que você entenda o que vai acontecer mais para frente. Observe, primeiro, a ordem em que os personagens são mostrados:
- Garcia;
- Fortunato;
- Maria Luísa.
Essa cena de abertura é perfeita não só para mostrar o drama central do conto (a causa secreta), mas também para criar uma atmosfera perfeita de suspense. O que os deixou assim? O que aconteceu entre eles, ou com eles, que os fez ficar em silêncio, cada um em seu canto?
A pergunta é respondida mais para frente. E já adianto que essa cena não é o clímax do conto. Se você quiser saber como essa história termina e como ela é simplesmente uma obra-prima da narrativa breve, vai ter de ler palavra por palavra, frase por frase.
Eu até poderia explicar o que acontece no enredo, afinal o que importa, em arte, é a forma que organiza e estrutura o conteúdo. Mas se é sua primeira vez lendo, com certeza a experiência de ser impactado pelo final da história será diferente. Causa Secreta é um dos melhores contos de todos os tempos.
Leia.
A Aposta

Imagine a seguinte cena:
Você está participando de uma festa num casarão grande e chique. Cercado por figuras ilustres, você se vê na situação de opinar sobre a natureza da pena de morte. Obviamente, você é favorável à sentença fatal e a maioria concorda com você. Mas, de repente…
Um jovem diz que “a prisão perpétua é mais digna que a pena de morte.” Você, é claro, reafirma o contrário, argumentando que a pena de morte sim dá mais dignidade aos criminosos. Privá-los de sua liberdade até o fim de suas vidas é que não seria realmente humano.
Ainda assim, o jovem mantém os pés firmes. Nesse momento, você pergunta a ele se está disposto a fazer uma aposta para provar sua tese sobre prisão perpétua. O conteúdo da aposta é simples: o jovem deve ficar preso por 15 anos, num quarto que será preparado no quintal do casarão. Ele será privado do contato humano, mas seus pedidos serão atendidos: livros, vinhos, instrumentos musicais, etc.
No fim dos 15 anos, o jovem receberá o valor de 2 milhões de dólares, caso consiga suportar o desafio. A pergunta que fica é: você faria esse acordo? Não sei se eu faria esse acordo. Pouco importa.
Em A Aposta, de Anton Tchekhov, a narrativa acompanha exatamente uma aposta entre um jovem jurista e um banqueiro, cujas opiniões sobre a pena de morte diferem. Um conto absolutamente magistral, com uma escolha de ponto de vista interessantíssimo e um desfecho… Emocionante! Sem dúvidas um dos melhores contos.
De quanta terra precisa um homem
Ainda na Rússia, além de Tchekhov, outro exímio contista é Liev Tolstói. O autor de Guerra e Paz e A Morte de Ivan Ilitch mostra, em De quanta terra precisa um homem, por que é lembrado como um dos maiores escritores de todos os tempos.
Com uma narrativa simples mas envolvente, De quanta terra precisa um homem investiga os limites do desejo humano, que não conhece limites. Parece paradoxal? É porque de fato é. Me acompanhe:
Nosso protagonista ouve falar de um lugar onde pode adquirir um grande pedaço de terra, o que seria bastante lucrativo. Ele decide ir até esse local, persuadido pela própria ganância e, talvez, pelo diabo ou algum demônio. O fato é que, ao chegar lá, o protagonista conhece o povo daquela terra e sua promessa: se ele conseguisse, até o pôr do sol, dar uma volta completa no pedaço de terra que deseja, poderia ficar com ela.
Como a ganância humana não conhece limites, o protagonista acredita poder conseguir alguns bons metros quadrados de terra fértil. Vale dizer que ele ainda tenta se convencer a agir de maneira moderada, mas é claro que isso não acontece do jeito que ele quer.
De quanta terra precisa um homem é uma leitura envolvente, com uma narrativa simples e brilhante e um clímax absurdamente bom. Você não vai se arrepender de ler um dos melhores contos já escritos.
Um coração singelo
Saindo um pouco da Rússia (voltaremos a ela mais tarde), vamos falar desse que é, acredito, o maior romancista de todos os tempos. Mas além de ter escrito a obra-prima Madame Bovary, Gustave Flaubert também escreveu Um Coração Singelo (parte de Três Contos). A história acompanha a vida de Félicité, uma empregada doméstica que dedica sua existência a servir os outros.
A humildade é mesmo um paradoxo: aquele que busca ser simples, “ser comum”, cresce ao ponto de alcançar o extraordinário. O filósofo inglês G. K. Chesterton escreveu o que, para mim, é a chave para entender o coração dessa gigantesca heroína moderna:
“A coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns.”
Félicité é nossa “mulher comum”: uma simples empregada doméstica que alcança de fato a virtude de uma heroína homérica pela sua virtude, pela sua nobreza e simplicidade, não pelos grandes feitos. Aqui, cada descrição da rotina da protagonista, na casa de Madame Aubain, é feita com uma precisão que beira a frieza de um neurocirurgião.
Ao mesmo tempo, é essa frieza técnica que permite ao leitor construir uma profunda empatia por Félicité. Já nos primeiros parágrafos fica claro para o leitor a simplicidade da personagem:
“Por cem francos ao ano, ela cozinhava e fazia a limpeza da casa, cosia, lavava, passava a ferro; sabia enfrear um cavalo, engordar as aves, bater manteiga, e permaneceu fiel à sua patroa – que, no entanto, não era pessoa agradável.”
Em tão poucas palavras Flaubert conseguiu expressar um gigantesco mundo psicológico, enquanto nos compadece da situação nada agradável em que se ela encontra. Simplesmente um dos melhores contos de todos os tempos escrito por um verdadeiro gênio.
Leia.
O Violino de Rothschild
Além de A Aposta, Tchekhov escreveu O Violino de Rothschild, que é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores contos de todos os tempos. Nessa breve narrativa, acompanhamos Iakov Ivanov, um homem que vive em uma pequena aldeia e ganha a vida fazendo caixões.
Iakov é um personagem difícil de gostar no início: ele é avarento, ranzinza e trata muito mal sua esposa, Marfa, a quem ele mal nota, até que ela adoece e morre. E é justamente a morte dela que se torna o catalisador da consciência de Iakov. Pela primeira vez, ele olha para o passado e vê o deserto que construiu ao seu redor, percebendo que poderia ter sido gentil.
A avareza de Iakov é o que o impede de demonstrar amor à sua esposa. Ele passa seus dias calculando prejuízos financeiros, sem se dar conta de que o maior prejuízo é a falta de humanidade, de gentileza e amor em suas relações.
A música entra na história através do violino. Iakov era um excelente violinista, mas vivia de fazer caixões em uma cidade onde tudo era velho. Depois da morte da esposa, a música mostra quantos sentimentos de dor e sofrimento estavam enterrados dentro do peito de Iakov. Por quê? Você vai ter de ler para descobrir.
A genialidade técnica de Tchekhov é o que torna O Violino de Rothschild um dos melhores contos de todos os tempos. É até difícil imaginar a história do conto (do gênero literário) sem falar uma única vez, nem que seja para uma menção honrosa, desse conto de Anton Tchekhov.
Missa do Galo

“Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.”
Que maneira mais brilhante de começar um conto, você não acha? Machado não nos coloca exatamente no in media res, no meio da ação. Ele começa, na verdade, levantando o estado subjetivo do personagem: ele nunca pôde entender a conversa que teve com uma senhora.
Por quê? Por que não conseguiu entender uma simples conversa? Talvez porque a conversa não seja muito simples. Outra pergunta se levanta: qual a relevância, para nós, de estabelecer a diferença de idade entre ele e a senhora? Ele tinha dezessete, ela trinta. Uma grande diferença, é claro, mas se fosse apenas uma conversa, talvez esse detalhe não fosse importante.
Machado, no entanto, escolheu alguns detalhes curiosos para abrir o conto e, ao mesmo tempo, nos dar a temática central dele. Vejamos: há o jovem e a senhora; a conversa se passou há muitos anos; ele tinha 17 anos, ela 30; era noite de Natal (o que tem a ver com o título, afinal estamos falando da Missa do Galo).
Tudo o que você precisa saber para desenvolver a história na imaginação está dado em um primeiro parágrafo simplesmente brilhante. Agora, você apenas precisa juntar as peças e, quem sabe, entender o que o protagonista nunca conseguiu. Sem dúvidas um dos melhores contos para ler este ano.
Os Mortos
Considerado por muitos o maior conto da língua inglesa, Os Mortos encerra a coletânea Dublinenses de James Joyce com uma força lírica inigualável. A história se passa durante uma festa de Natal na casa das tias de Gabriel Conroy. Gabriel é um intelectual, um homem que se orgulha de sua cultura e posição social, mas que, ao longo da noite, percebe que vive em uma bolha de autoengano e desconexão emocional com o mundo e com sua própria esposa.
O clímax do conto não ocorre na festa, mas no quarto de hotel, após o evento. Gabriel está cheio de desejo por sua esposa, Gretta, mas ela está distante, emocionada por uma canção que ouviu na festa e que a lembrou de um amor de juventude, Michael Furey, um rapaz que morreu por ela. A revelação de que Gretta guardava essa paixão secreta destrói o ego de Gabriel, que se dá conta de que nunca amou ou foi amado com tamanha intensidade.
Joyce usa este conto para explorar o conceito de “epifania”: um momento de revelação espiritual ou psicológica onde o personagem (e o leitor) vê a realidade como ela realmente é. Gabriel percebe que é uma sombra, alguém que caminha pela vida sem realmente tocá-la. A percepção de que os mortos podem ser mais “vivos” na memória e no impacto emocional do que os que estão fisicamente presentes é o que dá o título à obra.
A passagem final, com a neve caindo suavemente sobre toda a Irlanda, sobre os vivos e sobre os mortos, é de uma beleza transcendental. Joyce funde o destino de todos os seres humanos em uma única imagem de silêncio e brancura. Os Mortos é um dos melhores contos de todos os tempos.
O Divino e O Humano
Escrito por um Tolstói já idoso e profundamente convertido aos seus ideais cristãos-anarquistas, O Divino e O Humano é uma meditação profunda sobre o sacrifício e a verdade. O conto foca em Svetlogub, um jovem revolucionário que é condenado à morte por suas atividades políticas contra o regime czarista.
O que Tolstói explora aqui não é o sucesso da revolução, mas o que acontece com a alma de um homem quando ele se vê diante do cadafalso.
A narrativa é dividida entre o destino do revolucionário e o do carrasco, ou daqueles que o condenam. Tolstói mostra o contraste entre a justiça dos homens (o humano), que é falha, vingativa e baseada na força, e a justiça de Deus (o divino), que é baseada no amor e no perdão universal.
Durante seus dias na prisão, Svetlogub passa por uma transformação interna, trocando o ódio político por uma paz que ultrapassa o entendimento dos seus captores.
A descrição da espera na cela, a frieza dos oficiais e a última carta à mãe são momentos de uma intensidade emocional que só Tolstói consegue atingir sem cair no sentimentalismo barato. Ele quer que sintamos o peso de cada decisão moral.
Tolstói nos convida a ver a humanidade mesmo naqueles que consideramos nossos inimigos ideológicos. Ele nos lembra que, acima das leis humanas e dos conflitos políticos, existe uma lei maior de fraternidade que muitas vezes esquecemos no calor da luta. É sem dúvidas um dos melhores contos de todos os tempos.
Feliz Ano Novo
Para encerrar essa lista, um conto para o seu final de ano. (Brincadeira, pode ler quando quiser.) Feliz Ano Novo se passa no Rio de Janeiro, na virada do ano. Nossos personagens são alguns bandidos que planejam fazer um grande roubo no dia do réveillon.
Com uma maestria técnica absolutamente insana, Rubem Fonseca alcança uma fluidez incomparável em sua prosa. Não há marcações tradicionais com travessão ou uso de aspas para marcar os discursos direto e indireto. Fonseca recorre apenas ao discurso indireto livre, mesclando suavemente os diálogos às descrições e cenas.
Falando em diálogos, é muito difícil não rir do que os personagens falam e como falam. E por mais que Fonseca conte a história do ponto de vista dos bandidos, ele não tenta justificar nenhuma de suas ações ou argumentar ideologicamente em favor de um ataque aos ricaços. Não há heróis aqui: a ideia é mostrar que uns são vilões dos outros.
Eles são brutais, vulgares e movidos por um ressentimento acumulado que explode de forma incontrolável. Ao mesmo tempo, ele não poupa a elite, mostrando-a como fútil e desconectada da realidade sangrenta que a cerca.
O ritmo do conto é cinematográfico e me lembra os filmes do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn. A ação se desenrola de forma rápida, com diálogos curtos e uma descrição visual que remete ao submundo.
O uso da primeira pessoa nos coloca na pele do agressor, o que torna a experiência de leitura desconfortável e provocativa. Fonseca quer que sintamos o medo, o ódio e a adrenalina, removendo qualquer distância segura que possamos ter do “problema da violência”.
Não importa por onde você comece essa lista, todos os contos aqui listados são alguns dos melhores contos já escritos. O ideal é que você leia todos. Na verdade, apenas leia, pois tenho certeza que você encontrará alguns dos melhores contos da literatura universal aqui.