A Literatura e a Vida Moral – Parte 1

Quando falamos da função da Literatura, e do objetivo do cultivo literário na mente humana, de pronto são evocadas duas finalidades possíveis, mas aparentemente contraditórias.  A primeira seria a Literatura enquanto forma artística. De fato, no século XIX, surgiu uma forma de categorização de determinadas criações humanas que se diferenciavam das demais pelo fato de não possuírem nenhuma utilidade instrumental aparente – apenas o deleite estético. Lembremos que “estética” vem do grego aisthesis – “sensação”. Realmente, em um primeiro momento, o fator unificante de fenômenos heterogêneos do ofício humano como a Pintura, a Escultura e a Literatura é o efeito estético, a impressão de sensações e imagens belas nos sentidos externos e internos da pessoa que as contempla.

Outra noção de Literatura seria a da obra literária enquanto meio de transmissão de valores. Desde a Grécia Antiga, aquele conjunto de fenômenos que atualmente denominamos como “artes” possuíam um valor pedagógico, de formação da personalidade humana – e isto era particularmente verdadeiro em relação à totalidade das obras que hoje denominamos como a “Literatura Grega”. Os poemas épicos de Homero e Hesíodo, as tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes e as comédias aristofânicas, todas essas produções eram vistas como testemunhas dos valores gregos, expressões dos ideais da pólis – a cidade-estado na Grécia Antiga.

Ora, uma visão não necessariamente contradiz a outra. A beleza de uma obra, que a torna esteticamente valiosa, é justamente o modo por meio do qual é revelada a condição humana, as tensões fundamentais entre nossos ideais, por um lado, e nossas ações concretas e circunstanciais, por outro. Assim era compreendida a própria Ilíada, uma dos dois poemas narrativos homéricos, que por gerações foi a principal transmissora dos valores gregos.

Para compreender a relação entre Literatura e vida moral, exemplificada na Ilíada, é necessário conhecer certos pressupostos do mundo de Homero. O filólogo alemão Werner Jaeger, em seu renomado estudo Paideia: a Formação do Homem Grego (1934), aponta a aristeia como um dos principais valores da cultura grega. Como nos lembra Jaeger, os ideais éticos que guiavam os heróis gregos eram, antes de tudo, aristocráticos. Daí surge a concepção de “aristeia”, que implica justamente numa forma de excelência, de magnanimidade que distingue os heróis do homem comum: “A palavra aristeia, empregada mais tarde para os combates singulares dos grandes heróis épicos, corresponde plenamente àquela concepção. O esforço e a vida inteira desses heróis são uma luta incessante pela supremacia entre seus pares, uma corrida para alcançar o primeiro prêmio”.

Se os ideais dos heróis gregos faziam parte de uma ética aristocrática, de uma luta pela superioridade, então um herói só poderia ser valoroso caso seu adversário também o fosse: não há nenhuma glória em vencer um homem fraco ou sem qualidades. Para um herói grego, vencer um adversário excelente significava ser excelente, e como aponta Jaeger, “a aristeia (que termina com o triunfo de um herói famoso sobre o seu poderoso adversário), constitui a mais antiga forma dos cantos épicos”.

Tendo em vista o ideal da aristeia, da excelência, conforme destacado por Jaeger, podemos compreender de que forma a Ilíada representa a imaginação moral grega, e como neste poema narrativo a experiência estética é expressão e representação da tensão entre esses ideais e ações humanas concretas. Aqui, usaremos a tradução de Frederico Lourenço, publicada pela Editora Penguin. Um dos principais lugares-comuns a respeito do poema épico de Homero é de que seu tema seria a Guerra de Tróia. A trama da Ilíada, de fato, ocorre durante o embate entre aqueus e troianos, mas este não é o tema principal da obra, e sim a cólera de Aquiles, como diz o narrador no Canto I.

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Aquiles é um dos principais heróis do exército grego. No início da narrativa, o sacerdote de Apolo, Crisis, que está ao lado dos troianos, pede por sua filha Criseida, que foi sequestrada como escrava de guerra por Agamemnon , líder grego. Agamemnon nega o pedido, Apolo intervém em favor de Crisis e gera consequências terríveis para o acampamento grego. Agamemnon entrega Criseida para seu pai, mas toma a escrava de Aquiles, Briseida, para substituir o posto de Criseida. Aquiles se revolta e retira-se do combate contra os troianos. A retirada de Aquiles faz com que o exército grego tenha muitas perdas, e eventualmente seu companheiro Pátroclo morre em combate contra o líder dos troianos, o príncipe Heitor.

Homero, por meio de seu olhar épico, também narra o ponto de vista de Heitor. O príncipe dos troianos é mostrado como um guerreiro corajoso em diversos momentos, ao ponto de durante o Medievo, Heitor ser considerado ao lado de Alexandre, o Grande e Júlio César, como um dos três maiores modelos que um cavaleiro poderia ter entre os pagãos. Mas uma das cenas mais tocantes do poema narrativo é no Canto VI, numa cena não beligerante, mas doméstica, quando Heitor se despede pela última vez de sua esposa, Andrómaca, e de seu filho, Astíanax:

Assim falando, o glorioso Heitor foi para abraçar o seu filho,

mas o menino voltou para o regaço da ama de bela cintura

gritando em voz alta, assarapantado pelo aspeto de seu pai amado

e assustado por causa do bronze e da crista de crinas de cavalo,

que se agitava de modo medonho da parte de cima do elmo.

Então se riram o pai amado e a excelsa mãe:

e logo da cabeça tirou o elmo o glorioso Heitor,

e depô-lo, todo ele coruscante, no chão da casa.

De seguida beijou e abraçou o seu filho amado

É uma cena, antes de tudo, familiar: Heitor vai se despedir do filho, que se assusta com o elmo do pai. O príncipe dos troianos ri com sua amada, tira o elmo e beija e abraça o filho uma última vez. Aqui, não é apenas guerreiro – é esposo e pai. Plantando estas sementes, o texto homérico garante a potência do efeito da cólera de Aquiles, tema principal da narrativa, conforme explicitado pelo próprio narrador. Ao descobrir que Heitor matou seu querido Pátroclo, Aquiles entra em uma fúria desmedida, e retorna à luta contra os troianos. Aquiles encontra Heitor e o derrota em combate. A ira do herói grego por ter perdido Pátroclo era tanta que, após vencer Heitor, amarra o corpo do príncipe troiano em sua carruagem e o arrasta, entre a sujeira e a poeira, ao redor das muralhas de Tróia, para que todos os troianos se escandalizassem com o corpo de seu líder sendo vilipendiado, conforme é narrado no Canto IX

Assim disse; e para o divino Heitor planeou atos sem vergonha.

Perfurou atrás os tendões de ambos os pés

do calcanhar ao tornozelo e atou-lhes correias de couro,

atando-os depois ao carro.

A cabeça deixou que arrastasse.

Depois que subiu para o carro e lá colocou as armas gloriosas,

chicoteou os cavalos, que não se recusaram a correr em frente.

De Heitor ao ser arrastado se elevou a poeira, e dos dois lados

os escuros cabelos se espalhavam; toda na poalha estava

a cabeça que antes fora tão bela. Mas Zeus a seus inimigos o dera, para a vergonhosa profanação na sua própria terra pátria.

A imagem do corpo de Heitor, outrora guerreiro valente, pai e esposo, coberto por poeira e sendo arrastado, comove o leitor. Choram a família de Heitor e todo o povo de Tróia, “como se toda a cidade, toda a íngreme Ílion, ardesse com fogo de cima a baixo”. O ato de Aquiles, mais do que uma forma de violência, fora uma ruptura com o código da aristeia: ao conceder este tratamento indigno ao corpo de seu oponente, e impedir que os troianos reclamassem o corpo de Heitor para ritos fúnebres dignos de um herói, Aquiles estava negando a própria aristeia. Para os heróis gregos, a lógica é simples: se o meu oponente é digno, também o sou, se meu oponente é indigno, tampouco o sou. “Deste modo na sua fúria Aquiles aviltou o divino Heitor”. No Canto XXIV, Apolo compara as ações de Aquiles a um leão tresloucado:

Mas é ao feroz Aquiles, ó deuses, que quereis favorecer:

ele a quem faltam pensamentos ajuizados e um espírito

moldável no peito. Como um leão, só quer saber de selvajarias:

um leão que encorajado pela sua estatura e força e altivo

coração se atira aos rebanhos dos homens, para arrebatar a refeição.

Do mesmo modo Aquiles perdeu toda a compaixão e não tem

 a vergonha que tanto prejudica como ajuda os homens.

Aqui, percebemos como em Homero ética e estética, a tensão entre o ideal e o real, por um lado, e a criação de belas imagens encontram-se. A figura de linguagem lida – um símile que realiza uma analogia entre as ações de Aquiles e os atos de um leão feroz, é um exemplo do procedimento inaugurado por Homero que seria consagrado nos estudos da Literatura Ocidental como “símile épico”. A função de um símile épico, na narrativa, é eclipsar temporariamente a ação principal, numa forma de digressão, comparando-a com uma imagem que potencializa seu significado. Assim como o leão feroz, Aquiles não era covarde, mas sua ferocidade não era mais a coragem dos heróis, a nobreza de espírito que imortaliza suas obras e os torna modelos de excelência. Aquiles tinha se rebaixado, tornado semelhante a uma fera, seu poder era menos o exemplo de harmonia dinâmica que constitui a virtude para os gregos, e mais um impulso instintivo e indomado. É particularmente sugestivo que essa comparação tenha saído da boca de Apolo, divindade associada ao equilíbrio e à harmonia, valores simultaneamente éticos e estéticos para os gregos: antes mesmo que Aristóteles redigisse seus textos éticos, o poeta elegíaco Teógnis de Mégara (507 – 485 a.C) já proclamava: “Sem zelo demais: o melhor está no meio; e, ficando no meio, alcançarás a virtude”.

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Aquiles, portanto, sofreu um rebaixamento moral e ontológico – deixou de ser herói, tornou-se animal selvagem. Todavia, em um dos momentos mais sublimes da Literatura Ocidental, o Rei Príamo de Tróia aparece, em lágrimas, beijando as mãos de Aquiles e pedindo pelo corpo de seu filho Heitor, para que pudesse conferir os devidos ritos fúnebres. Príamo não aparece como alguém ressentido, mas reconhece a excelência, a virtude, a aristeia de Aquiles – e portanto, Aquiles também reconhece a magnanimidade do velho rei. Aquiles retorna o corpo de Heitor, e a partir desse momento, retorna à condição de herói: ao permitir que Heitor seja sepultado como herói, Aquiles reconhece a dignidade de seu oponente, e portanto restaura sua própria.

A cena de Aquiles contemplando a face do Rei Príamo, por um lado, e o rei de Tróia contemplando o herói grego, por outro, após que os dois participassem de um banquete juntos, não é apenas carregada do ponto de vista moral, mas também estético:

Mas quando afastaram o desejo de comida e bebida,

foi então que Príamo Dardânida olhou maravilhado para Aquiles,

como era alto e belo. Pois na verdade olhá-lo era ver um deus.

E Aquiles olhou maravilhado para Príamo Dardânida:

fitou o nobre aspeto e escutou as suas palavras.

Nesta cena, em que uma personagem contempla a outra, percebemos uma das primeiras tentativas de articulação do ponto de vista das personagens na técnica narrativa ocidental. O crítico literário inglês David Lodge, em seu The Art of Fiction (1992), nos lembra que uma narrativa pode fornecer diferentes pontos de vista sobre um mesmo evento – ainda apenas que um ponto de vista por vez – e que mesmo que o narrador relate os eventos de forma quase onisciente, como é o caso do narrador homérico, o ponto de vista de certas personagens acaba sendo privilegiado. É o caso deste trecho da narrativa homérica: é Príamo que reconhece que Aquiles era “alto e belo”, que “olhá-lo era ver um deus”, e é Aquiles que fita o “nobre aspeto” do rei dos troianos. Esta sutil transição entre o ponto de vista do narrador inspirado pelas musas, que relata os eventos, e o ponto de vista das personagens, que contemplam a nobreza e o valor um do outro, prefigura o uso que o romancista francês Gustave Flaubert faria quase dois milênios depois da técnica narrativa da falsa terceira pessoa, por exemplo na cena de Madame Bovary – aqui usamos a tradução de Mário Laranjeira, publicada pela Penguin – em que Charles contempla as unhas de Emma, havendo uma sutil transição para o ponto de vista do marido: “Charles ficou surpreso com a brancura das unhas dela. Estavam brilhantes, finas na ponta, mais limpas do que os marfins de Dieppe, e cortadas em forma de amêndoa.”

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Retornando ao poema homérico – é por meio da técnica narrativa que se revela o reconhecimento da excelência entre o herói grego e o rei dos troianos, é por meio das imagens que Homero revela a tensão entre ideal e real. Homero não expõe a doutrina da aristeia na forma de catecismo, mas narra como um herói grego corajoso mas impetuoso, feito Aquiles, agiria e se sentiria em determinadas circunstâncias – aquilo que Aristóteles chama de “universal segundo a verossimilhança” em sua Poética. O narrador da Ilíada não tenta convencer o leitor que vilipendiar o corpo de um herói valoroso, um esposo e um feito, como Heitor, é moralmente errado: Homero mostra Heitor sendo um herói, marido e esposo valente, e depois mostra seu corpo sendo vilipendiado por Aquiles, causando a experiência do “horror”, a qual Aristóteles considera uma das duas experiências estéticas por excelência, em conjunto com a “piedade” . É por meio da representação das ações humanas que Homero revela a tensão entre ideais e circunstância concreta, é por meio da estética que o poeta revela sua ética, e é por meio de sua Literatura que os gregos expressavam sua imaginação moral.

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