Aquela não é terra para homens planos

“O Senhor disse a Caim: “Onde está teu irmão Abel?”. Caim res­pondeu: “Não sei! Sou porventura eu o guarda de meu irmão?”. O Senhor disse-lhe: “Que fizeste! Eis que a voz do sangue do teu irmão clama por mim desde a terra..De ora em diante, serás maldito e expulso da terra, que abriu sua boca para beber de tua mão o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, ela te negará os seus frutos. E tu serás peregrino e errante sobre a terra”. — (Gênesis 4:9-12)

De Homero aos dias de hoje, a grande arte de nossa civilização sempre foi um fino equilíbrio entre os ideais humanos, por um lado, e nossas circunstâncias concretas, por outro. Com o desenvolvimento dos meios representacionais, novas formas vêm sendo criadas, e novas maneiras de se expressar a condição humana são concebidas. O cineasta Paul Thomas Anderson é um desses raros indivíduos dotados simultaneamente daquela capacidade que o crítico literário Lionel Trilling denominava como “realismo moral” – a concepção das dificuldades, paradoxos e contradições da vida moral humana, mas também daquele espírito artístico que poderia ser traduzido na célebre definição de Oscar Wilde, em seu prefácio ao O Retrato de Dorian Gray: “O artista é o criador de coisas belas”. Seu filme There Will be Blood (2007), cujo título foi traduzido ao português como Sangue Negro, é testemunho da força de sua arte.

A obra cinematográfica começa com uma sequência aparentemente monótona de cenas: um homem trabalhando, escavando, descendo e subindo de uma escavação de petróleo. Só sabemos de seu nome depois que ele o assina pela primeira vez num papel: Daniel Plainview. O nome está para a personagem como o signo está para o significado – antes de sabermos seu nome, Daniel Plainview não era ninguém. E de fato, era apenas mais um buscando por petróleo, riquezas, fortunas. Ele só passa a ser alguém para o espectador a partir do momento em que encontra petróleo, e passa a negociar com potenciais investidores. 

O nome de Daniel Plainview possui uma curiosa raíz bíblica: Daniel é um profeta do Antigo Testamento, conhecido por suas visões proféticas da chegada do Reino dos Céus. Mas o reino que Daniel Plainview prospecta não é celeste: é mundano, terreno, e como seu próprio sobrenome aponta, “plano” (plain). Daniel Plainview é um homem abertamente secular: sua prospecção de petróleo é guiada puramente pelo interesse por dinheiro e poder. Estabelece uma relação de verticalidade puramente física com as planícies que explora: o movimento da perfuratriz. É um homem prático, daqueles que realizam as palavras do Fausto de Goethe: “No princípio era a ação”. Sua visão de mundo é anti-humanista: por meio de seus diálogos, revela um pleno desgosto pelo convívio com o próximo, se orgulha de ver os defeitos e as mesquinharias das almas das pessoas por trás das aparências e gostaria de se afastar de todos depois de conseguir dinheiro o suficiente com a prospecção petrolífera. No ponto de vista de Plainview, os homens são planos, horizontais – não possuem a verticalidade do sumo bem ou do extremo mal, apenas mesquinharias, e por isso podem ser explorados como um poço de petróleo.

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Após conquistar a atenção dos investidores, Plainview é visitado por um jovem rapaz chamado Paul. O jovem, em troca de dinheiro, oferece para Plainview informações sobre sua fazenda de origem: que lá mora sua família, e que por baixo da propriedade há petróleo. Plainview e seu filho H. W. visitam a propriedade, e o prospector oferece à família de Paul uma oferta pela propriedade. O irmão gêmeo de Paul, Eli, pastor da igreja local, informa que sabe da presença do petróleo na propriedade, e insiste em uma oferta maior, que seria destinada ao financiamento de sua igreja. Antes da inauguração do poço de petróleo, Eli insiste que Plainview o apresente para que o jovem pastor abençoe o poço. Plainview concorda, mas na hora descumpre com o que foi acordado. Uma sequência de acidentes ocorre após a inauguração do poço: um trabalhador morre, e o filho de Plainview perde a audição após uma explosão. Plainview não paga plenamente aquilo que deve à igreja de Eli, e quando o jovem pastor o confronta em público, é humilhado e espancado pelo prospector de petróleo. A relação de Plainview com Eli é essencial para compreender a construção das personagens.

Daniel Plainview descobre que, para obter passar o encanamento por baixo da casa da propriedade de Bandy, um homem da região do poço, precisa se converter à igreja de Eli. O prospector de petróleo finge se arrepender de seus pecados e participa de um batismo público. Anos depois, no final do filme, quando Plainview está vivendo em uma mansão vazia, Eli o visita depois de viajar muito tempo como peregrino, e realiza uma oferta para Daniel: o terreno de Bandy. Plainview aceita com a condição de que o pastor dissesse que era um falso profeta, e que Deus “é uma superstição”. Eli reluta em um primeiro momento, mas o desespero por dinheiro devido à crise econômica que o país passava, e declara que sua religião é uma farsa. Daniel Plainview ri e informa o pastor de que já tinha extraído todo o petróleo do terreno de Bandy, e o compara com seu irmão Paul, que forneceu ao prospector de petróleo a informação de que a propriedade da família tinha uma jazida. Eli entra em desespero, e Daniel, em frenesi, o espanca até a morte com um pino de boliche. Aqui há uma inversão do arquétipo bíblico dos irmãos em eterna competição: Esaú e Jacó. Eli é o Esaú enganado pelo próprio sangue, Paul é Jacó, o irmão esperto que analisa as circunstâncias e delas se aproveita.

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A cena final do filme, e a atitude de Eli em particular, mostram a ambiguidade estrutural que constitui a obra de Paul Thomas Anderson. O conflito entre Plainview e Eli não pode ser reduzido à questão da “tradição vs. modernidade”, como se Plainview representasse a ganância da expansão civilizatória, enquanto Eli seria o porta-voz das formas de associação comunitárias tradicionais. No final das contas, Eli não era desprovido de interesses financeiros, e estava disposto a renunciar a seus ideais se isso trouxesse o patrocínio de Plainview. Seria então uma parábola sobre a hipocrisia religiosa, um manifesto da vitória de Daniel sobre Eli, uma afirmação de que é melhor ser cínico como Plainview do que hipócrita como o jovem pastor, de que o transcendente é uma ilusão e que os eventos do filme são um microcosmo da condição humana – uma sequência de intrigas e dissimulações, cheias de som e fúria, sem nenhuma transcendência?

Os dois acidentes que ocorreram após a inauguração do poço teriam sido mero acaso? Teriam sido uma intervenção divina? Será que Eli estava certo ao afirmar que o trabalhador não teria morrido e o filho de Plainview não teria ficado surdo, caso o poço tivesse sido abençoado? Não é possível responder com plena convicção nenhuma dessas respostas: a forma artística do filme não permite que respondamos com nenhuma certeza que os acidentes foram castigos divinos ou mera fortuidade, e aquele que toma um dos dois partidos de forma convicta o faz por sua conta e risco de cair em superinterpretação. Mas algo é fato: há um sentido objetivo na morte do trabalhador de Plainview, e na explosão que levou à surdez de seu filho. Se esses dois eventos realmente foram o ato de um Deus que observava a situação e desejava punir Plainview por sua insolência, ou se foram a mera crueldade do acaso, a situação ganha toda uma camada de ironia quando nos lembramos que o nome do jovem pastor é “Eli”. É muito comum ver “Eli” como abreviação de “Elias” , profeta do Antigo Testamento que, em dois momentos, teve seu testemunho profético ignorado por israelitas que caíram no culto idolátrico a Baal, o que levou à sérias consequências desastrosas. 

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Independentemente da corrupção que Eli escondia, no primeiro caso Eli é o porta-voz inconsequente do Altíssimo, no segundo, é o profeta do absurdo. Essa sequência de eventos ricos em significado, mas de interpretação ambígua, tornam densa a relação entre Plainview e Eli, e pavimentam o caminho para o desentendimento que será o fio condutor da trama: o filme acaba com a morte de Eli pelas mãos de Plainview. E neste momento, vemos o imaginário moral de Paul Thomas Anderson em seu auge – a arte como imitação da natureza e dos atos humanos, e nossa experiência dessa natureza e desses atos é exatamente a ambiguidade dos acontecimentos que aparecem em nossas vidas – em certos momentos aparecendo irradiantes, plenos de significado, em outros momentos aparecendo como uma série de causalidades desconexas, ironias crônicas das coisas. Mas a obra cinematográfica também expõe simbolicamente o drama interior do “homem fáustico”, como diria Oswald Spengler: o homem que busca fundar a si mesmo, moldar a si e ao mundo por meio de sua ação – e Paul Thomas Anderson não nos diz se Plainview estava certo ou errado, mas nos mostra que a modernidade não é uma terra segura para homens planos.

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